O fim de um ano e a chegada de um novo é a típica época para
realizarmos um balanço das conquistas, avaliarmos as dificuldades e
prepararmos o espírito para novas metas. Os direitos do consumidor
também merecem essa avaliação.
A condição de consumidor é vivida por qualquer cidadão. Não poderia ser
diferente em uma economia de mercado: até direitos essenciais são
pagos, direta ou indiretamente. Assim, é importante que, para o adequado
exercício da cidadania, todos estejam bastante atentos às conquistas
alcançadas e dificuldades enfrentadas pelos consumidores e por seus
representantes na sociedade frente ao Poder Público, à Justiça e às
empresas.
E, em 2011, a defesa do consumidor teve bastante trabalho. Como ocorre
há muito tempo, os problemas dos consumidores adquirem outras facetas,
mas os setores mais reclamados ainda são os mesmos. Além disso, as lutas
dos consumidores se acumulam e se diversificam ao longo dos anos.
No início da vigência do Código de Defesa do Consumidor, as grandes
bandeiras foram garantir a qualidade de alimentos, a informação e o
controle de qualidade de produtos, o cumprimento de ofertas com a
entrega de produtos no prazo que deveria ser informado ao consumidor, o
acesso à justiça, largamente viabilizado com a criação de Juizados
Especiais Cíveis, entre outros. Hoje ainda a luta inclui muitos dos
direitos citados, mas também inclui a necessidade de universalização de
serviços essenciais, de informação e orientação clara e adequada sobre o
crédito, sobre a melhor opção disponível, de participação social nos
debates que interessam à sociedade consumerista junto às agências
reguladoras, entre tantos outros. E o ano que acabou de se encerrar
demonstrou que é preciso trabalhar muito no intuito de tornar tantos
direitos muito mais efetivos.
Um claro exemplo disso é o acesso universal à banda larga. É inegável
que a banda larga é um serviço indispensável à prática da cidadania e
viabiliza o pleno exercício de uma série de direitos fundamentais. Em
2011, os debates sobre o Plano Nacional de Banda Larga começaram: as
concessionárias assumiram o compromisso de universalizar o seu acesso
até 2014. O Idec esteve atuante nesses debates, inclusive conquistando
uma vaga na representação dos consumidores junto ao Comitê Gestor da
Internet. A campanha “Banda Larga é um direito seu” alcançou os Trend
Topics do Twitter.
Não é só o serviço de banda larga que está muito aquém das expectativas
do consumidor. O item mais reclamado no Cadastro Nacional de
Reclamações Fundamentadas, do Departamento de Proteção e Defesa do
Consumidor, é o celular. O problema mais reclamado é defeito. Segundo a
Anatel – Agência Nacional de Telecomunicações, em março do ano passado
já havia mais de 210 milhões de celulares no Brasil , enquanto
que o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística –
IBGE indicava uma população brasileira com quase 191 milhões de pessoas.
Há, na média, mais de um celular por pessoa no país. Muitos têm apenas o
celular como telefone principal, não se valendo da telefonia fixa.
Ficar sem o celular, para muitos, é ter impedido o direito fundamental à
comunicação. Evidencia-se a essencialidade do aparelho e a necessidade
de que os fabricantes melhorem, e muito, a qualidade do seu produto.
Nesse sentido seguiu a campanha do Idec pela essencialidade do celular,
defendendo a sua troca imediata em caso de defeito – dispensando o prazo
de 30 dias para o conserto; mais de 2.500 consumidores já aderiram à
campanha.
Outros setores não deixaram por menos. O segundo setor mais reclamado
no já mencionado Cadastro Nacional de Reclamações Fundamentadas é o
setor financeiro. Dispensável discorrer sobre seus abusos. Comparando
novembro de 2011 e o mesmo mês em 2010, os números do Banco Central
demonstram que houve um crescimento de 42,9% nas reclamações dos
consumidores. Os problemas reclamados se repetem: débitos não
autorizados nas contas correntes, cobrança indevida de tarifas,
principalmente sobre serviços não solicitados.
Em maio de 2011, o Idec fez um pesquisa sobre as tarifas bancárias e detectou que os pacotes chegaram a subir até 124%.
Além disso, falta ao consumidor informação sobre o funcionamento e o
risco de produtos financeiros. Todos os produtos financeiros, sem
exceção, são bastante complexos e o que se observa é um grande incentivo
à concessão de crédito, principalmente, para a nova classe C, um
estrato social que há pouco tempo tem acesso ao crédito. E acaba por ter
acesso a créditos muito caros – basta observar como o cartão de crédito
se proliferou nos últimos anos, visto que de 2004 a 2011 houve um
crescimento de 228% apenas no número de cartões de crédito no Brasil –,
sem qualquer informação e aconselhamento sobre a sua adequada e
saudável utilização. O consumidor precisa de informação. Nesse sentido, o
Idec também cumprindo uma série de pesquisas sobre cartões de crédito,
avaliou vários contratos e notou uma série de cláusulas abusivas com as
quais o consumidor precisa estar muito atento: alteração unilateral do
contrato, inclusão do nome do consumidor em órgãos de proteção ao
crédito sem prévio aviso, bloqueio temporário do cartão sem aviso
prévio, vencimento antecipado de débitos em caso de atraso, entre
outros.
O ano passado ainda vivemos a expectativa e a intensidade dos debates
sobre o Cadastro Positivo. Em trabalho atuante, o Idec participou de
todo o processo de discussão da legislação, inclusive pedindo
expressamente o veto de dispositivos que prejudicariam os direitos à
informação e à privacidade do consumidor, bem como fez campanha com a
participação dos consumidores dirigida à Presidente Dilma Roussef com
excelente resultado: os pedidos de veto foram integralmente aceitos.
Vale lembrar: a autorização expressa do consumidor para a abertura do
cadastro é imprescindível.
O setor de saúde também merece atenção: desde 1º de janeiro deste ano
as operadoras de planos de saúde têm limite de tempo para marcação de
consultas e outros procedimentos e houve definição de regras para os
contratos coletivos de planos de saúde em caso de demissão ou
aposentadoria.
Mais uma preocupação do consumidor é em relação à alimentação. Foi
promulgada uma lei estadual que exige maior clareza na informação sobre
alimentos transgênicos nos rótulos das embalagens. Essa luta é antiga: o
Idec, há cinco anos, exige o aviso sobre a presença de alimentos
transgênicos nos rótulos das embalagens independentemente de sua
concentração. O excesso de sal em alimentos industrializados também é
uma preocupação da sociedade consumerista e o Ministério da Saúde
instituiu limites máximos desse componente nos alimentos.
Outros temas também invadem a esfera de liberdade de escolha do
consumidor. Nesse diapasão está o acesso ao conhecimento: a luta para o
exercício pleno do direito de escolha do consumidor ganhou destaque em
2011. A tentativa do PL Azeredo de criminalizar uma série de práticas na
internet que disponibilizam de forma muito mais ampla o acesso ao
conhecimento é uma delas. O Idec fez campanha incisiva para barrar o
prosseguimento da aprovação do Projeto de Lei nos termos e que foi
relatado.
A diversificação dos problemas enfrentados pelos consumidores
caracterizou-se também por intensificar os problemas com serviços:
atrasos e cancelamentos de voos, falta de assistência material e
informativa e práticas abusivas destacaram-se na aviação civil, exigindo
da ANAC – Agência Nacional da Aviação Civil mais rigor nas punições das
companhias e transparência na divulgação desses números; descumprimento
da Lei de Entrega em São Paulo e problemas na prestação de serviços em
sites de compras coletivas, com muitas práticas abusivas, fizeram com
que elas se tornassem alvo da fiscalização do Procon em São Paulo.
Vale ressaltar o ponto positivo da criação da Câmara Técnica de
Supermercadistas do Procon de São Paulo, da qual o Idec faz parte, que
proporcionou ao consumidor segurança na venda de produtos dentro da
validade. O consumidor, se encontrar algum produto fora da validade,
leva outro de graça.
Avaliar a qualidade dos produtos continua sendo uma bandeira da defesa
do consumidor e que dá resultado: em 2010, o Idec fez um teste sobre a
segurança dos ventiladores e constatou uma série de irregularidades que
colocavam o consumidor em risco. A partir deste ano, os ventiladores de
mesa serão comercializados com o selo do Inmetro.
O trabalho em 2011 foi árduo e os resultados podem e, de fato, demoram a
aparecer. Muito mais do que ações, passamos por processos. Ter
consciência de que se é parte fundamental desse processo é importante
para o consumidor: seu direito só será respeitado se ele exigir o
respeito.
2012 é mais um ano para lutar por mudanças e por respeito: consumo
sustentável, crédito responsável, qualidade de produtos e serviços,
participação social na regulação. E hoje não basta mais exigir o
respeito para si mesmo, mas exigir o fim de práticas abusivas
padronizadas para todos. É preciso mobilização. Esse processo depende do
envolvimento e sensibilidade da sociedade, de cada cidadão, para
perceber que, por meio de representantes legítimos e sérios frente ao
Poder Público, ao Poder Judiciário e às empresas, grandes metas são
alcançadas. Conhecer o trabalho da sociedade civil organizada e
participar é fundamental. Esse trabalho só se torna possível com
participação social.
Por
Maria Elisa Novais
Fonte: http://www.idec.org.br
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